Quando a satisfação da compra coletiva passa longe






Jussara Correia, do Diário de Natal

Descontos de até 90% em produtos ou serviços que o consumidor, normalmente, não conseguiria. Esse é o grande diferencial das compras coletivas, um sistema que em pouco mais de um ano tornou-se uma febre em Natal. Oferecendo facilidades no momento da aquisição, os sites de compras coletivas estão moldando o comportamento de um mercado consumidor bastante recente no Brasil. No entanto, esse sistema tem gerado dores de cabeça para algumas pessoas que, ao adquirir um serviço, sentem-se discriminadas pelo fato de estarem participando de uma promoção. O atendimento diferenciado em algumas empresas tem levado os consumidores a acreditarem que o barato está saindo muito caro.

O processo pode se diferenciar um pouco entre um site de compra coletiva e outro, mas de maneira geral é simples: o comerciante contrata um site de compra coletiva para divulgar a sua oferta de produto com um desconto expressivo. Depois, o site de compra coletiva divulga a oferta para seus usuários cadastrados, que também ajudam a divulgar convidando conhecidos para as ofertas e os interessados começam a se inscrever. Quando se atinge o número mínimo de interessados, a oferta é validada e todos os compradores recebem um cupom para adquirir o seu produto com desconto. A promoção continua até atingir o prazo de validade estabelecido.

Até aí, tudo são flores. O grande problema está no atendimento dado aos clientes em alguns estabelecimentos. A jornalista Gabriela Olivar sabe bem o significado da expressão "comprar gato por lebre". Ela coleciona más experiências de compras. "Sinceramente, digo e repito. Quem não sabe prestar serviço não coloca nada em site de compra coletiva, evitando se queimar. Como compradora esporádica, já tive algumas experiências nem um pouco agradáveis com empresas que querem 'pegar o besta' e ganhar em cima do que não foi dito no regulamento da promoção. Pior, tratando o cliente como se ele estivesse pedindo um favor, porque comprou com um desconto que a própria empresa se propôs a dar, abatimento esse que se converte em milhares de compras e não deixa o empresário sair perdendo", declarou. .

A primeira experiência negativa que Gabriela teve foi com uma empresa especializada em podologia.. "Para minha surpresa, fui informada, ao chegar ao local, que teria que pagar R$ 5 se quisesse pintar as unhas. Detalhe: isso não estava no regulamento da promoção. O serviço de lá é muito bom, mas eles pecaram cobrando tal taxa a quem chegava com o cupom do Peixe Urbano. Resultado: não voltei mais", disse.

Outro problema com compras coletivas aconteceu recentemente com a jornalista. "Comprei, no Natal Urbano, uma plástica de fios mais escova modeladora, num salão. Quando começou a escova, o profissional perguntou se eu queria o cabelo 'arrebitado' e eu respondi que sim. Na medida em que foi escovando, foi também enrolando e prendendo com os tradicionais frisos de cabelo, que ajudam a dar o efeito. Como eu ia a um casamento, pedi a ele que deixasse os frisos para eu retirar em casa, antes de sair. Primeiro ele disse que tudo bem, mas, antes de terminar, cochichou no ouvido do dono do estabelecimento e voltou me dizendo que, para ir para casa com o cabelo daquele jeito, eu teria que pagar R$ 10", afirmou.

Ao questionar o profissional se a razão da mudança de ideia era por causa dos frisos, ele respondeu que não. No entanto, outra cabeleireira interrompeu a conversa e disse que o cupom não dava direito àquele produto. "Não tive como não rir, afinal, não fui eu que pedi para o profissional enrolar meu cabelo e eu apenas ia polpá-lo de tirar os frisos. O dono do salão não gostou nem um pouco e foi logo pedindo para o rapaz terminar meu serviço e tirar os benditos frisos. Resultado sai linda, mas com ódio. Pasma com esse povo que não sabe trabalhar, fidelizar o cliente e garantir o mínimo de respeito a uma pessoa que pagou para estar ali", declarou Gabriela.

A jornalista ainda teve outro problema com as compras coletivas, desta vez numa franquia de óculos escuros. "Ganhei do meu irmão um bônus de R$ 69para comprar um óculos e fui lá. Ao escolher o meu, perguntei à vendedora se ele seria guardado numa caixinha de óculos e ela respondeu que não, pois era do Peixe Urbano. Minha mãe logo perguntou se, caso estivéssemos comprando sem ser com o cupom, o mesmo óculos, de R$ 69, viria na caixa. Ela respondeu prontamente que sim. Pedimos que ela explicasse o motivo dessa restrição, já que não havia nada a respeito disso indicado no regulamento da promoção, e a mulher apenas disse que cumpria ordens e não tinha mais nada a dizer. Nos entregou o óculos numa bolsinha bem fininha, daquelas que a gente recebe - com todo respeito - quando compra um na praia, de R$ 10 ou R$ 15", declarou.

Demora

No caso da empresária Marcela Zauli, o atendimento diferenciado foi explícito. Ao contratar o serviço de limpeza de pele numa clínica de estética, a cliente teve uma surpresa quando foi agendar a data da consulta. "Me disseram que só tinha vaga para dois meses depois, quase no limite do fim da promoção. Uma funcionária me perguntou 'É do Peixe Urbano?' e quando eu falei que sim, ela disse que só haveria vaga bem depois. Quando eu perguntei se seria diferente, caso eu tivesse comprado sem a promoção, ela disse que sim, que teria vaga no dia seguinte", declarou Marcela.